domingo, 9 de agosto de 2015

As novas regras do jogo (reportagem)



(Reportagem vencedora do Prémio Macau-Reportagem 2015, atribuído pela Fundaç˜ão Oriente)

Nos últimos tempos, Macau tem vivido acontecimentos que prometem deixar marcas: o jogo, a principal indústria, sofreu a primeira queda anual desde a liberalização, foi desmantelada a maior rede de prostituição na história do território e os "junkets", angariadores de jogadores, estão a fechar as salas VIP, onde as apostas não têm limites.
A mensagem que Xi Jinping trouxe em Dezembro a Macau sobre a necessidade de diversificar a economia tem cada vez maior ressonância.
O jogo em Macau: de filme "noir" a entretenimento para toda a família? O que está mais próximo da realidade e da fantasia? Que filme é este?
Trabalho com edição e realização de Hugo Pinto transmitido na Rádio Macau no dia 25 de Janeiro de 2015.

Entrevista com Heitor Alvelos



Entrevista que foi para o ar na Rádio Macau no dia 29 de Novembro de 2014 com Heitor Alvelos, professor de Design e Novos Media da Universidade do Porto. A conversa andou à volta de alguns dos temas que marcam a sociedade tecnológica em que vivemos.
Pode o design organizar o caos da informação que circula nas redes sociais? A "smart technology" está a fazer de nós "smart human beings"? Há lugar para a introspecção e o pensamento com a omnipresença da informação e da tecnologia? Faz sentido falar de cidadania digital?

Entrevista com o filósofo José Gil



Entrevista com José Gil que foi para o ar na Rádio Macau no dia 20 de Setembro de 2014. Filósofo, ensaísta e autor de uma vasta obra, o professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa foi considerado “um dos 25 grandes pensadores mundiais” pela revista francesa Le Nouvel Observateur.

Integração regional de Macau: o futuro aqui tão perto (reportagem)



As relações próximas entre Macau e as regiões chinesas vizinhas são históricas, mas nunca como nos últimos tempos essas ligações foram tão estreitas.
A integração regional é um desígnio do futuro, mas quando ainda faltam 35 anos até Macau fazer parte do primeiro sistema têm sido várias as políticas e as medidas que vão reforçando a dependência e o sentimento de pertença em relação à China.
Apesar do destino traçado há questões que se levantam.
Conseguirá um território com a dimensão de Macau resistir e preservar intactos valores como a identidade e a cultura?
(Trabalho emitido na Rádio Macau no dia 22 de Junho de 2014)

Cartas de amor, quem as escreve?



"Cartas de amor, quem as não tem?" Começava assim uma cantiga famosa nos anos 1950, em Portugal. Hoje, quem as escreve?
Peça transmitida na Rádio Macau no dia 13 de Abril no programa Paralelo 22, dedicado aos 130 anos dos Correios de Macau.

Fim da história

Nunca, como por estes dias, me pareceu tão acertada a ambiguidade devidamente velada daquele provérbio chinês sobre os "tempos interessantes", algures entre a bênção e a maldição. Tudo o que se tem passado em Hong Kong remete para esses "tempos interessantes", agitados, turbulentos e inquietos. Desassossegados.

Mas o que uns vêem como ameaça, insegurança, instabilidade e perigo, outros, menos interessados na placidez da harmonia que não mexe nem por nada, entendem ser um rumor, uma impaciência, um anseio que vem com o sonho e a esperança. Uma espécie de mal necessário.

Por esta altura, sobre o que estará em causa no conflito já só se poderá lamentar a impossibilidade de que o espaço que separa uns e outros não possa ser reduzido por um diálogo genuíno e construtivo, em que, de parte a parte, se revele abertura e disposição para negociar. E, claro, ceder.

Todavia, não há surpresa. Sabe-se há muito que, da China, se vê o futuro. Há um caminho traçado e não se admitem desvios. Mas o que poderia ser clarividência é apenas poder (que é sempre fátuo). É isso que se receia.

O Partido Comunista continua comprometido com a sua "meritocracia" de tecnocratas, um sistema que se diz estar enraizado profundamente (como explica Zhang Weiwei no famigerado artigo "Meritocracy Versus Democracy", publicado no New York Times) na tradição do Confucionismo e que se reflecte desde o antigo sistema Keju, apresentado como o primeiro exame de selecção de funcionários públicos (que em tempos se chamavam mandarins). Além deste "saber só de experiências feito", argumenta-se, ainda, que neste modelo há limitação de mandatos e formas de prevenir a concentração de poder nas mãos de uma só pessoa, numa liderança colectiva em que os escolhidos têm que passar com distinção por práticas governativas.

Em todo o mundo, não faltam defensores deste sistema e enquanto a robustez económica da China continuar mais aparecerão.

A natureza e justificação económicas desta "meritocracia" não são secretas, nem na China, nem em Hong Kong (ou Macau), como o próprio chefe do Executivo C. Y. Leung mostrou, sem qualquer pudor, afirmando que um sistema democrático, ou seja, representativo da vontade popular, iria fazer com que a política do território fosse dominada pelos mais pobres, que certamente não partilham os mesmos interesses dos magnatas, uma minoria que deve ser protegida. A todo o custo.

É o devir histórico da "livre concorrência, com uma organização social e política correspondente, com a supremacia económica e política da classe burguesa". Marx e Engels sabiam o que diziam.

Mas além de podermos questionar o funcionamento de um mercado que, supostamente, favorece a livre concorrência mas gera um dos maiores índices de desigualdade, há algo que não devemos esquecer e que é anterior a todas as classes, tornando fúteis quaisquer distinções entre proletários e burgueses, pobres e ricos: não há meritocracia que nos salve da natureza humana que corrompe e se deixa corromper.

Pode haver, sim, contudo, um primado da lei e instituições judiciais independentes, direitos e garantias que assegurem, para todos, valores básicos e essenciais como a educação. E liberdades: de pensar, falar e de apontar o dedo ao que está mal e aos que não têm mérito. Mas estes são deveres apenas de um sistema político representativo, não de uma "elite" que estará permanentemente ocupada a defender os privilégios e a fazer crer que não somos todos iguais.


Se a economia é realmente o indicador que merece ser mais valorizado, então têm toda a razão. Fim da história.

Publicado no jornal Hoje Macau em Outubro de 2014

Zonas de desconforto

Em Hong Kong, os protestos entraram na terceira semana e não há fim à vista. Numa teimosa medição de forças, manifestantes e governo têm mantido o impasse, sem sinal de cedências, de diálogo ou confiança mútua, as condições que poderiam resultar numa solução do interesse de todos.

Tudo ao contrário do que Michael C. Davis, professor da Universidade de Hong Kong, especialista em lei constitucional, deseja e aconselha num artigo publicado no South China Morning Post, na última sexta-feira, o dia para o qual estavam marcadas as conversações entre os estudantes e a secretária-chefe, Carrie Lam, e que acabariam por ser canceladas unilateralmente pelo governo.

Michael C. Davis acredita no valor de um "diálogo sincero e construtivo". Nesse sentido, recomenda que os estudantes insistam que a negociação assente na Lei Básica, imposição continuamente defendida pelo governo.

"Sufrágio universal é mais do que 'uma pessoa, um voto", diz, lembrando que, "tal como tornou claro o Comité de Direitos Humanos das Nações Unidas, para que um processo eleitoral com um sufrágio universal possa ser qualificado de democrático, aos eleitores tem que ser dada liberdade de escolha numa eleição competitiva".

Ao excluir-se da nomeação do comité eleitoral o campo pró-democrata, que "tem conseguido, de forma consistente, entre 55 a 60 por cento do voto popular" nas eleições para o Conselho Legislativo, a proposta de lei apresentada por Pequim "falha o compromisso da Lei Básica sobre o sufrágio universal", que fala, como gostam de dizer os que andam sempre com o credo na boca, numa "nomeação [de candidatos] por parte de uma comissão largamente representativa".

Michael C. Davis lembra também a promessa de alto grau de autonomia dada ao governo de Hong Kong, um modelo que "depende" da defesa dessa autonomia feita pelo próprio Executivo, o que "inclui proteger valores essenciais como a democracia, direitos humanos e o primado da lei", sem os quais não há baixo ou alto grau de nada. No entanto, a única coisa que vemos o governo de CY Leung defender é a posição de Pequim. Que autonomia?

Em Hong Kong, deveria estar a debater-se como permitir que uma reforma política vá ao encontro dos padrões defendidos pelas Nações Unidas e pela população que não abdica das exigências que faz, tal como devia estar sob consideração a realização de uma nova consulta pública sobre a reforma política, face às críticas generalizadas acerca da falta de pluralismo e de manipulação de opiniões.

Em vez de trocas de acusações espúrias, o debate deveria ser acalentado com realismo e centrar-se no que objectivamente poderá ser conseguido: "aumentar a base constituinte da comissão de nomeação e baixar o limiar para nomeação", as duas possibilidades mais óbvias e pragmáticas (até no China Daily, um dos jornais oficiais do regime, já se admitiu haver "espaço para aperfeiçoamento" nestas questões), de modo a garantir uma eleição igualitária e justa. Que nada disto esteja ainda a ser discutido, ao fim de mais de duas semanas de protestos, é motivo de apreensão e de profundo desânimo.

Esperar que os protestos sejam vencidos pelo cansaço não é estratégia, é simplesmente não saber o que fazer, até porque as ruas bem podem voltar a ser poluídas e ocupadas pelo trânsito, que o desejo de uma verdadeira reforma dificilmente será apagado. Mais do que um problema de CY Leung, isso será uma questão para Xi Jinping resolver. O desconforto será partilhado por todos.

*

A Xinhua, a agência de notícias estatal chinesa, decidiu ouvir Rocha Vieira a propósito dos protestos de Hong Kong.

O “último governador português de Macau”, claro, está contra o movimento “Occupy Central”, porque "se continuar a haver agitação e violência, Hong Kong verá prejudicada a sua estabilidade e desenvolvimento, a vida normal das pessoas e a imagem internacional do território".

Rocha Vieira também falou sobre liberdade. O general, que governou Macau entre 1991 e 1999 sem dar entrevistas aos media locais e num período em que aumentaram os processos relacionados com acusações de abuso de liberdade de imprensa (só entre 1991 e 1995, 24 casos chegaram aos tribunais), considera que "expressar diferentes opiniões é sinónimo de liberdade", algo que diz só existir "quando respeitamos os outros através do diálogo e do entendimento mútuo". Continuando o pensamento, o antigo governador português diz acreditar que "apenas a forma  prudente de pensar da cultura chinesa", escreve a agência, mais "o diálogo e o entendimento, podem ajudar a resolver os problemas".

Uma das conclusões do estudo mais completo (o único?) realizado sobre Macau, "Macau: O Pequeníssimo Dragão", nos anos antes da transferência de Administração, declara que o governo português do território "nunca se mostrou interessado em incentivar qualquer movimento democrático que emergisse na sociedade", agindo, assim, em "consonância" com Pequim, que sempre procurou "neutralizar qualquer foco de oposição à sua política". Era a "atitude de acomodação portuguesa face a Pequim", escrevem os autores do estudo, Boaventura Sousa Santos e Conceição Gomes, a propósito da estratégia de "cooperação" e "entendimento total" com a China.

Esta memória do tempo em que, entre a Administração portuguesa, se defendia que "mais do que jornalistas, Macau precisa é de patriotas", e em que se lembrava (?) aos jornalistas portugueses que "antes de serem jornalistas são portugueses", ajuda a perceber o legado do défice democrático. Ajudará, também, a perceber porque é que a Xinhua quis ouvir Rocha Vieira.

A "acomodação" é a de sempre. O general, no remanso do seu recolhimento, ajusta-se sem o menor esforço ou desconforto à narrativa do Governo Central. Há coisas que nunca mudam. Na China, é assim que está bem. 

Publicado no jornal Hoje Macau em Outubro de 2014