"The past is a foreign country: they do
things differently there." Esta frase, que abre o livro “The Go Between”,
de L. P. Hartley, parece que ecoa quando me ponho a ler sobre Macau. É verdade
que o passado, onde quer que seja, é sempre outra dimensão, mas não haverá
muitos sítios, como aqui, onde seja também outro território.
Não me refiro às questões administrativas. Até
pode ser que aquilo de que falo derive, lá no fundo, das diferenças concretas
das eras, dos regimes dos homens e das circunstâncias, mas ia jurar que “as
coisas” eram (são) outras. Ia, mas já não vou, porque não cheguei a tempo do
passado de que só posso falar por dele ter lido. Por isso, conjuro.
O antigo hotel “Bela Vista”, por exemplo. A
esta distância, a vida do edifício conta-se com muitos pretéritos condicionais,
datas contraditórias e episódios de complicada verificação, mas nela tudo nos
remete para uma realidade que, apesar de longa e das influentes ramificações,
pura e simplesmente desapareceu.
A senhora casa foi mandada construir, em 1870,
no nº1 da rua do Tanque do Mainato, num terreno com três mil metros quadrados,
por uma família que nela viveu durante 20 anos até ir parar às mãos de um
inglês, jovem capitão de navios, e de sua mulher, tendo os dois ali decidido
fazer um hotel. “Boa Vista”, chamaram-lhe. E assim ficou, do alto de um
promontório, a ver o mar.
Governadores, barões e baronesas ali
pernoitaram e ali, nas espaçosas varandas, sentaram-se por entre arcadas a
mirarem as sampanas e os juncos vagarosos que passavam lá em baixo, na baía da
Praia Grande.
William e Catherine Clarke trabalhavam para a “Hong
Kong, Canton and Macao Steamer Company Limited”, onde ele comandava os
“ferries” que subiam e desciam o rio das Pérolas entre a colónia britânica e
Cantão, cidades que ofuscavam o brilho do entreposto comercial administrado
pelos portugueses. E foi ao empregador que William acabou por pedir um empréstimo
para se manter à tona num mar de dificuldades. Em Macau, a vida já correra
melhor; na China, os tempos eram de rebelião. Neste momento da história,
diz-se, também o hotel se tornara peão no jogo político.
Em 1902, o acossado proprietário terá tentado
negociar a venda do edifício ao cônsul francês, que pretendia estabelecer um
poiso para as tropas gaulesas da Indochina. O plano contou com a pronta
oposição dos ingleses, que queriam os franceses afastados da região. Londres
não terá descansado enquanto os portugueses não tomaram conta da ocorrência e
acabou por ser a Santa Casa da Misericórdia a apoderar-se do “Boa Vista”,
transformando-o num sanatório até que, em 1909, voltou a ser um hotel pela mão de
um francês, Auguste Vernon, que o arrendou por oito anos. O senhor que se
seguiu foi Albert Watkins, que quis fazer do hotel uma casa de jogo clandestina
e por isso acabou expulso.
Vago, uma vez mais, o nº1 da rua do Tanque do
Mainato transformava-se. De hotel e casino ilegal, o “Boa Vista” iria agora acolher
o Liceu de Macau, enquanto uma nova escola secundária não era construída. Foi ali
que Camilo Pessanha deu aulas.
A partir de 1923, o edifício foi alternando
entre hotel e a serventia que mais aprouvesse aos interesses instalados. Em 1936,
contudo, parecia certo que o destino era ser um hotel. A perspectiva seria de
tal maneira optimista que até o nome mudou: “Bela Vista”. Mas há sempre um mas.
Com os japoneses de novo a invadirem a China,
à neutra Macau chegavam refugiados em vagas que haveriam de continuar durante a
Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, a Revolução Cultural. Depois de longos e
conturbados tempos de declínio e decadência, a que não foram alheios a
concorrência do “Presidente Grand Hotel” ou do “Riviera”, em 1967, o “Bela
Vista” conheceu mais um proprietário, Adrião Pinto Marques, que, consta,
mantinha uma certa obsessão por Napoleão.
História atrás de história, o governo lá classificou
o edifício como “património”, o que terá servido de mote para a última vida
como hotel, desta vez na encarnação de “boutique”. Com apenas sete quartos, a
sustentabilidade financeira do projecto, depois de avultados investimentos,
merecia desconfiança, mas o charme provocava suspiros. Bernard-Henri Levy, por
exemplo, considerou o “Bela Vista” digno de Humphrey Bogart, Lauren Bacall ou Ernest
Hemingway.
Em Março de 1999, na noite de 27 para 28, o
hotel acomodou os últimos hóspedes. À meia-noite do dia 30, o “Bela Vista” era
entregue a Portugal, que ali iria hospedar os seus futuros cônsules na Região
Administrativa Especial.
Chegava ao fim a “soberania de inquilinato”, na
expressão de Agustina, mas infinitamente mais importante é que um outro país nascia
– chamava-se passado e só nele actores como Bogart e escritores como Hemingway
alguma vez nos poderiam visitar. Sem residências permanentes.
Publicado no jornal Hoje Macau em Maio de 2014
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